- Meu Deus, como você cresceu! – Falei me desvencilhando do abraço
que eu tanto tinha sentido falta. Lágrimas queriam insistentemente sair de meus
olhos, mas eu estava controlando-as ao máximo.
- Eu cresci, ou você que continua baixinha? – Ele deu um
empurrão de leve no meu ombro.
- Deixa de ser bobo Lucca, eu não sou baixinha. – Falei, não
gostava que as pessoas me chamassem de baixinha, e Lucca sabia muito bem disso,
por isso sempre me provocava.
Nós rimos, de nossa brincadeira boba. Sempre fazíamos isso
quando éramos crianças, provocávamos um ao outro, e depois ríamos de tudo.
- Eu senti muito a sua falta baixinha. Esse lugar não tem
tanta graça sem você! – Disse ele, parando de rir.
- Eu também senti muito a sua falta. Você era meu único
amigo, eu fiquei completamente perdida quando fui embora. – Disse, me
recordando do dia em que parti, foi o dia mais doloroso da minha vida. As
lágrimas voltaram a insistir a cair, e eu continuei tentando controlá-las.
- Mas agora você está de volta, e tudo voltará a ser como
era antes. Eu ainda continuo aqui como prometi, e ainda sou seu amigo. Sempre
serei. – Ele disse beijando minha testa.
- É tão bom estar de volta! Mas venha! Temos que comemorar,
você disse que estava indo ao baile, então vamos para lá.
Caminhamos até o castelo conversando e rindo. Eu sentia que
tudo estava completo agora.
- Filha, onde você estava? Já estávamos ficando preocupados.
– Disse minha mãe.
- Eu fui tomar um pouco de ar. – Respondi.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntou meu pai. Estranhei o modo como ele falou.
- Eu vim ao baile de comemoração da volta da minha amiga alteza. – Respondeu Lucca no mesmo tom que meu pai.
- Vá embora! – Ordenou papai.
- Como assim pai? Por que o senhor está falando assim com
ele? Ele é meu amigo e o senhor sabe disso. – Eu não estava entendendo
absolutamente nada.
- Filha, é melhor você ficar fora disso. – Respondeu papai,
em tom de alerta.
- Por quê? Ele tem todo o direito de ficar! – Eu já estava
ficando irritada, queria saber o motivo de meu pai estar sendo tão grosseiro
com Lucca.
- Angélica, eu já disse, fique fora disso. Agora entre com
sua mãe. E enquanto a você, se ainda tem um pouco de dignidade, vá embora e não
volte mais. – Disse meu pai. Ele estava muito bravo, mas eu não queria sair, eu
queria entender o que estava acontecendo.
- Venha filha, vamos entrar. – Disse minha mãe me puxando
para dentro do castelo.
- Vossa majestade pode me mandar embora, pode me impedir de
entrar, mas não pode impedir a nossa amizade. E eu não vou deixar que o senhor
acabe com tudo o que eu mais senti falta em toda a minha vida. – Disse Lucca
firmemente.
Eu olhava para trás todo o tempo, vendo meu melhor amigo se
afastar, e minha noite ser arruinada por meu pai.
Acordei com a empregada abrindo as janelas do meu quarto
deixando entrar a claridade que vinha do lado de fora.
- Bom dia alteza – Disse a empregada.
- Bom dia. – Na verdade não sei se era um bom dia. Minha
noite havia sido péssima, não tinha conseguido dormir direito, me revirei na
cama a noite toda, tudo culpa do acontecimento de ontem.
Não conseguia acreditar no que tinha acontecido, tinha
reencontrado meu amigo, e de repente o vejo ser destratado pelo meu pai. Queria
entender o que estava acontecendo e não iria sossegar enquanto não descobrisse.
Fui ao banheiro e me olhei no espelho, estava completamente
acabada, estava com olheiras, meu cabelo estava mais bagunçado do que o normal,
parecia que tinha acabado de voltar da guerra. Decidi tomar um banho para
relaxar e tentar ficar com uma aparência melhor. Quando acabei meu banho, desci
para tomar café com meus pais.
- Bom dia querida. – Papai e mamãe disseram.
- Bom dia. Bom dia Bright.
- Bom dia alteza.
- Como passou a noite querida? Mais cedo recebemos alguns
cartões de alguns convidados agradecendo o convite para seu baile, dizendo que
tudo estava impecável e que você se tornou uma dama muito bonita e adorável. –
Disse minha mãe com um sorriso enorme no rosto, agindo como se nada tivesse
acontecido. Como ela pode agir tão naturalmente?
- Realmente, tudo estava impecável. Pena que o final não foi
um dos melhores não é mesmo? – Perguntei. Está na hora de descobrir.
- Querida, este não é o melhor momento... – Disse minha mãe
tentando amenizar a situação.
- Por que não? Quando será o melhor momento? Para mim, este
é um ótimo momento, afinal estamos todos reunidos, somos uma família, podemos
perfeitamente conversar sobre isso agora e esclarecer as coisas.
- Angélica não nós vamos conversar sobre isso agora. – Respondeu
meu pai com a voz grave.
- Por que não? Qual é o problema em conversar sobre isso?
Pai, você destratou o meu melhor amigo, o senhor sabe o quanto ele é importante
para mim. Ele foi o único amigo que eu tive em anos, e agora que eu o
reencontrei o senhor o expulsa como se ele fosse um estranho. Eu preciso de uma
explicação. O senhor me deve isso! – Falei teimando com meu pai. Eu tinha que
descobrir o que estava acontecendo. Eu não podia deixar meu pai tratar o Lucca
como se fosse um estranho. Ele não era um estranho, era meu melhor amigo, e eu
vou descobrir o que está acontecendo.
- Angélica, pare de agir como uma menina teimosa. Nós não
vamos conversar sobre isso e ponto final. – Disse meu pai, aumentando a voz.
- Tudo bem, quando o senhor quiser me contar venha me
procurar. – Disse me levantando da mesa.
- Filha, aonde vai? Você nem tocou no café. – Disse minha
mãe.
- Perdi a fome. – Falei me retirando daquele lugar que
estava me sufocando.
Subi as escadas até meu quarto, peguei meu par de luvas que
se encontrava na gaveta, estava colocando-as quando alguém bateu na porta.
- Alteza? – Era Brigith.
- Pode entrar.- Falei.
- Desculpe incomodar alteza, mas, está tudo bem? – Perguntou
Brigith parecendo preocupada.
- Não muito. – Respondi.
- Posso ajudar em algo?
- Infelizmente não. – Respondi.
- Vossa alteza vai sair? – Perguntou.
- Vou. Preciso distrair minha cabeça. Mais tarde eu volto,
não se preocupe. – Respondi.
- Tudo bem.
Descemos as escadas juntas, e eu fui para o estábulo e
peguei Berbere para cavalgar.
Adentramos a floresta em uma velocidade razoável, as folhas
das árvores já começavam a tomar a cor alaranjada. O outono estava chegando.
Cavalgamos por mais alguns minutos e depois começamos a
voltar para o castelo, apesar de que eu não estava com muita vontade de voltar,
mas daqui a pouco meus pais ficariam preocupados e eu não queria arranjar
problemas, ainda mais depois de ter saído da mesa da forma como saí. Mas isso
não era culpa minha, eu só queria entender o que estava acontecendo. Eu tenho
esse direito e não vou fingir que nada aconteceu.
Depois que deixei Berbere no estábulo, caminhei até a
entrada do castelo, quando avistei Brigith parada na margem do lago que havia
ali perto. Fui até ela.
- Olá Brigith!
- Olá alteza! Está melhor?
- Sim.
Brigith assentiu com a cabeça.
- A vista daqui é muito linda. – Comentou Brigith.
- Concordo, eu adorava ficar aqui. Eu e o Lucca sempre
vínhamos aqui para brincar e conversar. – Disse.
- Vossa alteza falou com ele depois do ocorrido? – Perguntou
Brigith.
- Não. E hoje quando fui para a floresta ele não estava lá.
Você que ele está com raiva de mim? – Perguntei com medo.
- De vossa alteza não. Mas de vossos pais é bem provável.
- Por que será que eles fizeram aquilo? – Perguntei.
- Não sei alteza. Mas eles devem ter seus motivos.
Ficamos conversando o resto da manhã, depois fomos almoçar.
No almoço ninguém tocou no assunto. Minha mãe ficava
tentando iniciar conversar sobre alguma coisa qualquer, e eu só balançava a
cabeça ou fazia comentários como “Hum” ou “Ah”. No fim ela percebeu que eu não
queria conversar e desistiu de tentar, o resto do almoço foi um silêncio total.
O resto do dia continuou monótono até que a noite chegou e
eu fui para o meu quarto dormir.
O sono veio logo para a minha felicidade já que não queria
ter insônia hoje, o dia já fora chato o suficiente.
